Ainda que reivindique (justamente) sua individualidade no cenário da novíssima MPB, é difícil não associar de cara o trabalho do compositor Totonho à (r)evolução preconizada pelo manguebeat. Para ser mais correto, a música de Totonho leva adiante as idéias de Chico Science, com ênfase ainda maior na invencionice - e na vontade de contemporaneizar o sertão nordestino. Lançando mão generosamente da eletrônica, Totonho obtém um raro efeito de estranhamento no casamento da rusticidade de sua voz (aparentada à de Lenine) com os blips e blops sintetizados. É puro samba do paraíba doido, não raro desgovernado, mas que inevitavelmente impressiona pela vitalidade.
Totonho desossa a tradição nordestina e obtém resultados interessantes em várias faixas. Soa desconstruído e esparso em Segura a Cabra/Romualdo e Zé Resteu (Medley); lança mão de cavaquinho e beats sampleados, colados com a metaleira do Funk Como Le Gusta em Tudo Pra Ser Feliz (que também demonstra um bom letrista); e capricha no groove, filtrado com sutileza, o que cai bem em Musicacubana. Ao recuperar o canto galopante/falado dos repentistas, ataca de forró + eletrônica (Drum'n'bass na Feira) e electro-funk caatingueiro (Babaovomidi). E chega até - no momento mais radical - a misturar hardcore, techno e frevo em Zélimeiriana. Tudo isso fica, em vários momentos, à beira da indigestão. Mas o paraibano acerta ao optar pelo excesso (e não pela escassez) de idéias.
Em meio a tantas referências quase desconexas, Totonho também espanta pelo caminho inverso, o da simplicidade. Ele revela-se um melodista capaz de belas surpresas: Nhém Nhém Nhém, com arranjo mais ortodoxo, é um achado de balanço suave; assim como a lírica Glaciais, só teve a ganhar com sua instrumentação econômica e delicada. Há também espaço para a harmonia manhosa de A Vítima, onde mais uma vez é possível ouvir a influência de Lenine. (Marco Antonio Barbosa)
Pernambucano, de Serra Talhada. Compositor, cantor e percussionista, atua também no teatro como ator e na criação de trilhas. Influenciado pela cultura popular, tem nos emboladores e nos cantadores de coco, sua grande fonte de inspiração. Radicado na Paraíba, desde a década de 70, onde iniciou sua experiência com música, ao lado de artistas como Chico César, Grupo Jaguaribe Carne e outros.
Participou da criação, montagem e execução do espetáculo teatral “Vau da Sarapalha”, do Grupo Piolim como ator e músico, percorrendo vários países da Europa e América do Sul e quase todo o Brasil com o espetáculo. Como músico criou a banda “Labacé”, lançando seu primeiro cd em 1995, dando ínicio a uma série de shows por várias cidades do Brasil, como resultado, em 2003, lançou o segundo cd “Malocage”.
Em 2004 lança o DVD “Toca Brasil” que resume a obra do artista nos dois cds e algumas canções novas que farão parte da produção do próximo cd. Em 2006, como instrumentista, realizou shows na Espanha, Bélgica, Suíça e Itália acompanhando o cantor Chico César.
Intérprete performático, Escurinho traz em sua música uma poesia urbana de caráter social, numa fusão de ritmos que vai do xote ao reggae; do experimentalismo ao rock; do forró ao baião; do caboclinho ao boi de reizado; ritmos afros e tribais, do maracatu ao coco de embolada.
01 Cartas da vida 02 Energia 03 A Trilha 04 Querendo Nada 05 Bakulejo 06 Surf Rasta 07 Fundamentalismo 08 Nossa Terra, Nosso Mar 09 Ilusão do Pecado 10 Jorge da Capadócia Download
I - Trilha de Sumé/Culto à Terra/ Bailado das Muscarias II - Harpa dos Ares III - Não Existe Molhado Igual ao Pranto IV - O M M V - Raga dos Raios VI - Nas Paredes da Pedra Encantada VII - Marácas de Fogo VIII - Louvação a Iemanjá IX - Regato da Montanha X - Beira Mar XI - Pedra Templo Animal Download
A primeira vez que o Brasil ouviu Zé Ramalho da Paraíba foi na voz de Vanusa, que gravou a canção Avohay em seu disco "Vanusa - 30 Anos", em 1977, pela Som Livre. Um ano após, já sem o 'Paraíba", Zé Ramalho ganhou as paradas nacionais com sua enigmática e encantadora mistura sonora. Antes disso, noi entanto, tão fantástica quanto suas letras, a história de Zé Ramalho registra a gravação de um disco que ficou perdido nos escaninhos do tempo.
Trata-se do raríssimo álbum duplo "Paêbirú", creditado a Lula Cortês e Zé Ramalho, gravado entre os meses de outubro e dezembro de 1974, na gravadora Rozemblit, em Recife (PE). Com eles, estão Paulo Rafael, Robertinho de Recife, Geraldo Azevedo e Alceu Valença, entre outros. Na época, Lula Cortês tinha em seu currículo o álbum "Satwa" (1973), que trazia canções com título como "Alegro Piradíssimo", "Blues do Cachorro Louco" e "Valsa dos Cogumelos". Zé Ramalho, já tocando com Alceu Valença, tinha em sua bagagem a experiência de grupos de Jovem Guarda e beatlemania, como Os Quatro Loucos, o mais importante de todo o Nordeste.
Clássico do pós-tropicalismo, com (over)doses de psicodelia, o álbum trazia seus quatro lados dedicados aos elementos "água, terra, fogo e ar". Nesse clima, rolam canções como o medley "Trilha de Sumé/Culto à Terra/Bailado das Muscarias", com seus13 minutos de violas, flautas, baixão pesado, guitarras, rabecas, pianos, sopros, chocalhos e vocais "árabes", ou a curta e ultra-psicodélica "Raga dos Raios", com uma fuzz-guitar ensandecida. E, destaque do álbum, a obra-prima "Nas Paredes da Pedra Encantada, Os segredos Talhados Por Sumé" (regravada por Jorge Cabeleira, com participação de Zé Ramalho), com seu baixo sacado de Goin' Home dos Rolling Stones sustentando os mais pirados 7 minutos do que se pode chamar de psicodelia brasileira.
O disco por si só é uma lenda, mas ficou mais interessante ainda pelas situações que envolveram a sua gravação. A gravadora Rozenblit ficava na beira do rio Capiberibe, e o disco, depois de gravado, foi levado por uma das enchentes que assolavam a região. Conta a lenda que sobraram apenas umas trezentas cópias do disco, hoje nas mãos de poucos e felizardos colecionadores, muitas das quais no exterior, onde foram parar a preço de ouro. Contando com a co-produção do grupo multimídia Abrakadabra, o disco trazia um rico encarte, que também sucumbiu ao aguaceiro.
Hoje "top 10" das paradas de CDr no país e ítem valioso no mercado internacional de raridades psicodélicas, o álbum segue misteriosamente inédito no mundo digital. Com isso, a indústria dicográfica brasileira perde uma boa oportunidade de provar que se preocupa um pouco mais do que com o tilintar da caixa-registradora. "Paêbirú", que quer dizer "o caminho do sol" (para os incas), poderia ser o primeiro de uma série de raridades a ganhar a luz do dia, para ocupar uma fatia de mercado que, se pequena comercialmente, é fundamental para a preservação da cultura musical brasileira.
Texto de Fernando Rosa, originalmente publicado na revista Showbizz.
Abaixo, uma pequena parte do documentário produzido sobre esse lendário disco da psicodelia nordestina:
01 Cara Cardíaca
02 Mamma Jaz
03 Amorério
04 Ok, Você venceu!!
05 Diário de Bordo
06 Rio Abaixo
07 Paixão versus amor
08 Memória das Águas
09 Cara de Santo
10 Manus, manus
11 Fluvial
12 Fora do Circo
13 Um, Dois, Três, Viva!!!
14 Carapuça
15 Quem inventou o samba